O delegado Adailton Adam, responsável por traçar a linha que conectou o desaparecimento de dois homens com a ação de policiais militares e civis suspeitos de integrar um esquema de desvio de armas apreendidas, na Bahia, contou, em depoimento, que recebeu pedido para que encerrasse as investigações. 13-08-2025
13/08/2025 10:51
| Atualizado há 8 meses atrás
O caso aconteceu no dia 11 de julho de 2024 e terminou com a execução de duas pessoas. Na conversa, o cabo da PM chegou a pedir que os colegas respondessem pelo ocorrido individualmente e sugeriu que mataria os outros militares envolvidos.
"Ele insistiu em dizer: 'doutor, você vai pedir pela preventiva?'. Eu disse: 'vou pedir'. [Ele disse]: 'Não faça isso. Deixe os caras responderem soltos, porque eu mesmo vou derrubar'", relatou o responsável pela delegacia antissequestros.
O soldado Nery, capitão Dórea e o ex-PM Adisson foram presos durante uma operação em agosto de 2024. Com eles foram apreendidas drogas, dinheiro e armas, inclusive a arma que Nery tirou do esconderijo.
No dia em que foi preso, o capitão Dórea escreveu uma carta onde relatava que os policiais da Core pegaram ao menos 10 pistolas do esconderijo enterrado na mata. Entretanto, este documento desapareceu.
Toda a ação ainda é investigada pela Corregedoria da Polícia Civil e Ministério Público da Bahia (MP-BA). Ainda não se sabe a quantidade de armas retiradas do esconderijo que pertencia a uma facção criminosa.
Os policiais da Core chegaram a receber uma gratificação pelo armamento apresento, mesmo com as investigações em curso.
Relação entre mortes e esquema de desvios
Uma compra de R$ 12 com o cartão bancário de um homem desaparecido foi o gancho para a descoberta do esquema, em 2024.
A ação policial envolveu agentes do Departamento de Polícia Metropolitana (Depom) e Coordenação de Recursos Especiais (Core). Inicialmente, ela foi apresentada como uma das maiores apreensões de armas até aquela altura de 2024, quando teriam sido apreendidas em um matagal de Lauro de Freitas:
- uma submetralhadora,
- seis fuzis,
- e mais mil munições.
Segundo a investigação realizada pelo MP e corregedoria da PC, os agentes de segurança teriam capturado dois homens e os utilizado para encontrar um esconderijo de armas de uma facção criminosa. Os policiais investigados por participar na ação são:
- Roque de Jesus Dórea, capitão do Departamento Pessoal da Polícia Militar, conhecido como capitão Dórea (denunciado pelo MP-BA)
- Jorge Adisson Santos da Cruz, ex-policial militar, demitido por envolvimento em crime de extorsão e morte, em 2015 (denunciado pelo MP-BA)
- Ernesto Nilton Nery Souza, soldado da Polícia Militar (denunciado pelo MP-BA)
- Tibério do Vale Alencar, cabo da Polícia Militar (PM)
- Nilton Tormes, então coordenador do Depom
- Douglas Piton, então coordenador do Core
Foram levados com o grupo de policiais Joseval Santos Souza - conhecido como "maquinista" e que respondia por tráfico de drogas - e Jeferson Sacramento Santos, enteado dele. De acordo com a investigação, Joseval foi o informante do capitão Dórea e responsável por guiar os agentes de segurança até o esconderijo, enquanto Jeferson permaneceu no carro dele durante a ação.
A dupla trabalhava em uma obra na cidade de Lauro de Freitas e havia saído de casa por volta das 7h para trabalhar. Após Jeferson não retornar no horário esperado, a esposa dele tentou ligar para ele diversas vezes. Às 22h do dia 11 de julho de 2024, ela recebeu uma mensagem dele afirmando que teria uma reunião "com os meninos".
Na madrugada do dia 12 de julho, ela recebeu uma nova mensagem feita pelo número de Jeferson, em que foi comunicado o sequestro do homem. Os sequestradores se identificaram como policiais e exigiram R$ 30 mil, via PX, para libertar Jeferson e Joseval.
Preocupada, a esposa de Jeferson registrou uma queixa na Delegacia Especial Antissequestro e, a partir daí, o caso começou a ser investigado pelo delegado Adailton Adam. Foi ele que conseguiu conectar a ação dos policiais com o desaparecimento dos dois homens.
Compra de R$ 12 revelou participação de soldado da PM
Segundo o delegado Adam, o soldado Nilton Nery contou em depoimento que ouviu na mata, onde o esconderijo foi encontrado, perguntarem ao delegado Nilton Tormes o que fazer com o informante. O policial civil teria respondido com "dê o destino", indicando a execução de Joseval.
Após a tentativa de extorsão à família de Jeferson, o cartão de crédito da vítima foi utilizado para comprar um lanche no valor de R$ 12 em uma banca de caldo de cana, na cidade de Lauro de Freitas. (Verdinho Itabuna)